Videomaker, fotógrafa e contadora de histórias visuais.
caí no buraco
eu me pergunto todos os dias aonde eu estou
me pergunto quem é voce,
deitada ao meu lado, ressonando
me pergunto, sobretudo, quem seremos
no dia em que deixarmos de só ser
ouço vozes na varanda
eles falam de coisas superficiais
já eu tenho um dialogo interno
do qual nunca consigo abrir mão
que dirá a boca
eu intuo que algo me atrapalha
essa mania de pensar a pergunta
e a resposta – sempre estranha
é um boicote da mente à palavra
tudo fica no plano mental
enquanto que melhor seria
tornar mais verbal, visceral, factual
{qualquer rima bem rasa, só pra fugir do estruturante contemporâneo}
mesmo sabendo que só eu me escuto
insisto nessa fala pensamental
ocupa meus dias, horas, anos
quem sabe até mais,
me ocupa a palavra
desde que me lembro penso o que faço/falo/penso demais
todos os dias me pergunto aonde estou
me pergunto quem sou me pergunto
aonde estamos, como passamos
e todas as vezes que eu respondo as perguntas
que eu mesma faço
são perguntas que aparecem como resposta-latentes-vaga-lumes
e a cada pergunta mais pergunta
assim como o queijo e o tempo
cada um se preenchendo
de buracos de si mesmo
setembro de 2018
tem alguma
palavra
solta
tem alguma palavra solta
tem força bruta
nas coisas que se pensa quando se está só
o pensamento acompanhado é entrecortado pela convivencia
só, penso melhor
passeio entre conceitos que eu inventei
desconfio das verdades de dicionario
inauguro uma palanovra, aquela que substitui o pleonasmo
penso em gil naquele video do instagram
penso nas aranhas e na gata
sou tambem elas agora
sei que sou maior quando penso
quando deixo deitar o pensamento feito rio na pedra
escorre solto, cai firme e
empoeirado
quando desconfio de tudo
quando sou só eu metafisica
lembro de horácio holiveira
maga, ethiene
penso no sena e em astrogildo
presentes da imaterialidade
eu nunca escreverei parco poema
porque acho que pensar sobre o pensamento
é a maior das poesias
setembro de 2017
silêncio
“A mulher deve aprender em silêncio, com toda a reverência. E não permito que a mulher ensine, nem exerça autoridade sobre o homem. Esteja, portanto, em silêncio.”
1 Timóteo 2:11
todos estão ali dispostos conversando, fumando, bebendo, apenas sendo e ela sai, vai até a janela, sente um ar fresco e um principio de vontade de vomitar - mas que é perfeitamente controlável desde que se esqueça o que se passou e seu histórico de enjoos recorrentes.
sair, dar dois passos adiante, não por se sentir especial mas por estar consciente de que já não se pode estar parada em algum lugar que lhe valha menos que um sorriso. sabe ver a dureza, mas não sente ainda seu rosto enrijecer porque não é culpa sua nem da vida, são só consequências, coalisões, acasos semirrandômicos que fazem com que em cada momento as coisas se apresentem de uma maneira, em horas fluídas e noutrora vazias, desconectadas.
assim que sai todos a acompanham com o olhar, pois quando alguém consegue romper o fluxo faz nascer a vontade nos outros que nem sequer sabiam-se incomodados com o que se apresentava.
mas pisca lento, sorri devagar, esconde o enjoo, a fome do almoço que não comeu porque chorava e quando chora escreve e morde a língua, assim como quando se está só - mesmo não estando - e quer parar e pensar.
parou pra pensar e sentir a brisa. nada como um cigarro pra se lembrar de respirar.
se sua menstruação não desce não quer dizer que você seja mais ou menos mulher ou mãe ou filha. quando se menstrua se está infértil por fora e fértil por dentro, mas quando não se menstrua se está é fertilizada por dentro e árida por fora, porque não há como explicar o medo de se pôr filho no mundo, pois se já é assim torto o mundo pra si, o que dirá pros que nascem de si - ou de ti –
um enjoo percorre todos na sala e momentaneamente todos querem a brisa e o silêncio, mas ela sozinha o abraça pois antes só haviam os dois - a mulher e o silêncio juntos fecundaram toda a humanidade, não sabia? –
como calamos, não é mesmo?
sexo é silêncio; medo é silêncio; aborto é silêncio; filho sem pai é silêncio; mãe sem filho é o silêncio dos silêncios.
pra cada grito existem muitas horas de silêncio acumulado e por isso nunca haverão gritos suficientes. a Igreja concebeu e o patriarcado criou como um filho (ou seria um cachorro?) a ideia de que para as mulheres é bem melhor calar do que falar, obedecer do que dialogar.
que assim seja, então, o som do seu maior grito será silencioso: tem o som da ausência.
sair do lugar que se está e que causa dor, náusea, inapetência. buscar o lugar das grandes janelas do eu, buscar a si mesma nos próprios atos cotidianos. é possível sair dessa teia de vozes e ir de encontro a um silêncio ao mesmo tempo construtivo e reconfortante.
e antes que todos percebam, sorrateiramente, aquele lugar de antes ficou pequeno demais, o cheiro de fumaça, todo esse barulho, essas vozes dissonantes.
em silêncio, a ordem predominante foi rompida e já ninguém mais sabe o que falar. alguém não querer estar seguindo este fluxo controverso e violento que todos aceitam como realidade, quer dizer que talvez este não seja tão fascinante assim. ninguém pode esperar que o barulho pare de incomodar sozinho.
mas o silêncio, este sim, está aí pra quem quiser ouvir. a negação implícita no próprio ato de não ser. se não nos deixam falar, não os deixaremos ouvir.
sair, dar dois passos adiante. sempre se pode não estar mais no lugar em que se coloca. as fábricas, a televisão, os carros, o homem, o medo continuarão ali, ruidosos, ainda quem sem mensagem alguma.
o silêncio continua te abraçando...
e você só ouve a si.
abril de 2015